
"Desculpa, eu falo alto, né? Fiquei aqui com meu marido no celular e todo mundo em volta tava reparando, olhando pra minha cara... Eu sou assim... Não sei ficar falando baixo... Fazer o quê?"
Ok, ok, bem diria o ruivo Nelson Rubens. Uma conversa que começa assim, na fila de um Itaú, no horário de almoço de uma segunda-feira, não pode render lá muita coisa. E tampouco terminar bem. Por qual razão essa praga de taxa dos bombeiros só pode ser paga nesse banco? Me diga aí? E agora? Cadê o soldadinho com a escada magirus pra me resgatar dessa situação de iminente perigo, praticamente uma emergência já declarada?
"Ai, eu não sô daqui, sabe moço? Aqui é Bairro de Fátima, né? Vim pro Centro pra pegar um pagamento. Eu trabalho como modelo, sabe? Faço fotos pra L'oréal!", anuncia, enquanto ajeita os cabelos presos e engordurados...
"Acredita que atrasaram, eu tive que vim pra cá? Nunca estive aqui, primeira vez! Me perdi, uma confusão danada e eles ainda me pagaram com cheque! Agora vou na caixa pra tentar sacar os R$70", discursa a moça, sem que eu tivesse feito uma pergunta sequer. Antes de eu abrir a minha maldita boca, de espantar-me com o visagismo da figura, com o conjunto da obra, ou com o valor exorbitante do cachê, ela partiu pra revelações bem pessoais.
"Vou ter que voltar logo pra Nova Iguaçu! Minha irmã ligou pra ver a filhinha dela. A gente tá brigada. Ela faz pouco caso pra eu ver a garota. E eu arranjei tanta fralda, sabe? Mas aí, ó... (ela bate as costas de uma das mãos na palma da outra, repetidamente). Ela num reconhece, sabe? Mas a menina, de dois meses, nasceu com pobrema no coração. Tá com um pobreminha lá. Gostei dela me ligar... Deve di tá arrependida. Ontem mermo passei mal à beça, no Shopping Grande Rio. O senhor conhece? Já foi lá? Aquela chuva toda, destrataram meu marido na loja... Senti, assim, uma pontada no coração... Ele tentou até me acalmar, falou que é meu sistema, que tá nervoso. Briga com irmã é ruim, né? Eu tenho outro irmão, mas só por parte de pai... Minha mãe morreu, e o pai não se dá com ela... É o gênio difícil... Então, eu, que tenho 29 anos (me parecia uns 35), sô meio que mãe dela, que tem 24. O senhor ouviu? Tá me entendendo?", esbravejava.
As pessoas, que durante a ligação, minutos antes, olhavam somente para minha animada interlocutora, agora fitavam meus olhos de pânico. Ela, que estava atrás de mim na fila, já me acompanhava lado a lado, ombro a ombro. E eu lá, quieto, pacientemente em silêncio. Com fome. Irritado. Bastante envergonhado - quem me conhece, sabe como detesto aparecer, ainda mais em situações críticas como essa. O máximo que me permitia, além de começar a suar frio de incômodo, era balançar a cabeça assertivamente. Como quem, impávido e mudo, assinasse embaixo e concordasse com tudo.
E essa fila que não anda, meu Deus?
Passinho pra frente, e ela junto. Passinho pra trás, ela recua. Mexo nos bolsos, como se estivesse a procurar algo. Aperto uns botões no celular, acessando as mensagens. Envio um SOS? Dou as costas, apoiado pelos cotovelos sobre uma bancada. Tudo inútil. Nada parece abalar ou alterar sua narrativa. E as pessoas da fila riem da minha situação embaraçosa.
"Eu falo muito, né?", desconfia ela...
"Como?!?!?!! Imagina..." Penso eu, enquanto apenas sorrio.
A fila, enfim, anda. Vou pagar a minha conta, enquanto ela rapidamente ataca o sr. atrás de mim.
"Como é que faço pra daqui chegar na Central?"
Ela também é chamada e, lógico, para o guichê bem ao lado do meu. Sou mais rápido, e deixo os boxes antes, pronto para passar pela porta giratória - ah, sim, logo na entrada ela fizera a primeira cena, ao ficar presa! Educadamente, digo neste momento a minha primeira e única palavra nos últimos dez minutos, que para mim passaram em marcha lenta, lentíssima. Ritmo de eternidade.
"Tchau."
"Gostei muito de conversar com você", responde a moça, sem perceber que, em toda a sequência, ela falara sozinha. Executara um monólogo. "Não quer fazer um book? O senhor tem um cabelo tão bonito...", dispara ela, em tom de voz que faz-se perceber em boa parte da agência bancária.
Agradeço e rio. Alguma pessoas riem dela. Outras de mim. Todos, acho, riem de nós dois. Depois, almoçando sozinho, fiquei com vontade de voltar lá e falar uns absurdos pra tal modelo, que inicialmente achei louca, como tantas pessoas que andam diariamente pela Lapa. Naquela altura, já tinha quase certeza de que ela estava é tirando um baita sarro com a minha cara... De pura gozação comigo! Sacaneando meus cabelos a cada dia mais grisalhos. Filha da puta!
Mas... E a parte do book?
E se ela estivesse falando sério?
Será que rola?