
Sim, senhores. Ao longo da última semana, voltei a me identificar com o simpático e mal cheiroso personagem do Maurício de Souza. Me explico. É que (quase) todo mundo, ou melhor, a maioria dos meninos na pré-adolescência, lá pelos 12, 13 anos, passa pela fase Cascão. De malandrar no banho, molhar só o cabelo, dar uma enganada nas partes íntimas, disfarçar a suvaqueira e tocar o bonde em frente, não sem antes apelar pra uma boa dose de desodorante. Rebeldia, talvez. Porqueira na certa. Vivo uma espécie de 'recordar é viver', uma regressão psíquica. Um revival.
Desde quinta, 1º de outubro, quando cheguei de Fortaleza, estou sem água em casa. Na madrugada deste mesmo dia estourou um cano entre o 808 (bem acima do meu) e a cobertura. Resultado? Inundação pra todo lado, a começar pelo meu vizinho superior, é lógico. Inexplicavelmente, ou graças a meu santo forte, a torrente que fez os estragos naquele habitat sobre a minha cabeça escorreu direto pro outro lado, e danificou o 705, em frente a minha porta. E não só ele... Diante da irrefutável gravidade, também dançaram o 605, o 505, 405 e por aí foi. O meu apartamento, vítima preferencial, bem na mira, escapou ileso. Sem alagamentos. Nada foi danificado.
Mas... Aliás, por qual motivo na vida da gente sempre tem um 'mas'? Vocês sabem... Não existe almoço grátis. Aprovação sem provação. Milagres, sem promessas. Em todo bloco 08 foi fechada a coluna social, e preservada aberta a da área de serviço. Tchan, tchan, tchan! Na obra feita em minha humilde residência, pelos meus antecessores, a família da Islan, simplesmente foi extinta toda essa parte 'dos fundos'. Aquela história clássica de 'mata banheiro e quarto da empregada, reverte e cria mais um no social'. Bonito... Só que, com isso, enquanto os outros 08 tinham água pelo menos no kit serviçal banheiro de empregada/tanque/máquina de lavar, o 708 aqui ficou na seca. Sem uma gota d´água! Cês tão me entendendo? Tá dando pra acompanhar?
A verdade é que, mesmo mergulhado na merda, e sem poder ao menos me lavar, me senti envergonhado de reclamar qualquer coisa, tão logo vi o caos nos apartamentos atingidos. Vivi um dilema quase existencial. Seco ou molhado? Como me queixar da falta d´água nas torneiras se, ao mesmo tempo, lá no fundo, estava dando graças a Deus por minha casa estar assim, tão sequinha? De cara, algumas medidas práticas: viajar pra Campos no final de semana, não cozinhar nem ovo, economizar roupa. Nem desfiz a mala de Fortaleza... Previsão de conserto? Dez dias úteis. Na melhor das hipóteses, na outra sexta, dia 16. Começo a ficar preocupado. Penso em descer ao pátio do estacionamento nu, shampoo numa mão, condicionador na outra, cantando Vanessa da Mata. "O que a gente precisa é tomar um banho de chuva, um banho de chuva! Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai". Uma forma moderna e impactante de protesto, penso eu. Será que funcionaria?
A casa começa a ficar suja. Imunda. O banheiro é reconhecível no escuro, de luz apagada e olhos fechados, graças ao odor característico de rodoviária. Parece até que estou caminhando na Lapa... E o banho? Esse é um capítulo à parte. Pega o balde, enche a caneca, leva pro fogão, que é pra esquentar e fazer a mistura 'morninha'. Já pelado, no box, movimentos milimétricos e friamente calculados. Tudo programado. 30% da água pra cabeça, que já desce lavando boa parte do resto... 15% pra cada braço e suvaco, num arremesso certeiro. Nem pensar em errar a mira, hein! Os 40% restantes vão pros países baixos, região crítica, sobretudo para gordos. Eu sei, já perdi mais de 30 kg, mas ainda sou e, principalmente, me sinto um deles.
Temos lá nossas peculiaridades. Pensando bem, não só lá, mas também ali, aqui e acolá. Ah, o acolá! A Ana Cristina vai me entender. Temos dobras, muitas delas, que nos produzem recôncavos cegos, ocultos da nossa anatomia. Nossos pontos secretos são mais envergonhados, escondidos, camuflados... Não ficam, assim, escancarados, à mostra, dando as caras pra todo mundo! Além disso, não costumamos ser muito elásticos. Nossos contorcionismos, até mesmo pela rechonchuda massa corporal, são delimitados... Não conheço gordo que consiga enxergar um centímetro das costas, operação que os magros executam facilmente ao apoiar a cabeça sobre os ombros... Vira daqui, gira pro outro lado, pula, balança e se estica todo, como um gato angorá no sofá. Por vezes, minha higiene parecia até uma aula de RPG erótico!
Ao jogar a água no enxague da 'Caverna do Dragão', de baixo pra cima, identifico o som que levou algum sábio a batizar essa prática de 'banho tcheco'. A água bate por ali - isso mesmo, nessa região que essa sua mente poluída tá pensando - como uma espécie de chuveirinho desgovernado. Te dá um susto íntimo, quase um comichão, e cai no piso no box: tcheco um, tcheco dois! Atenção, jogada final: tcheco três! Ih, será que saiu todo o sabão ou, no final do dia, vou estar todo assado?
Fiz um apelo ao subsíndico, que é do meu andar e, agora há pouco, instalamos uma mangueira enorme, coisa de uns 20 metros, puxada do tanque do apartamento da frente. Posso, se quiser, andar por toda a casa com ela em riste, de tão grande! Uma espécie de gato. Uma ligação quase clandestina. Primeiro ato, tomar banho! Segundo, lavar o banheiro. Terceiro, lavar roupas. Por hoje tá bom! Menos Cascão, posso ir dormir feliz. A obra, na verdade, tá pronta, o cano foi trocado em tempo recorde. A dificuldade agora é fazer a ligação final e fechar tudo. Vale lembrar que, numa engenharia revolucionária, a reparação foi feita por fora do prédio. Estamos esperando um alívio da chuva, para que nosso bravo encanador possa subir e descer pela corda sem o risco de escorregar e despencar do meio do caminho...
De tudo isso, uma lição clara. Como a gente joga água fora! Logo ela, que é considerada uma das riquezas mais escassas e, por isso mesmo, valiosas do planeta. Se eu disser que, com uns três ou quatro baldes por dia, tomei banho, escovei dentes, dei tchau pro alien do vaso e ainda lavei uns copos e pratos, vocês acreditam? Ah, fiz até barba. E não andei por aí fedendo, não. Um pouco cascudo, talvez. Pobre, mas limpinho. Pelo menos, ninguém comigo reclamou... E quer saber o que mais? Chova canivete ou faça sol, a gente pode até perder o banho. O que não dá pra perder é o bom humor...