
Que a vida nem sempre é boa, ou justa, sei disso faz tempo. Mas, em algumas ocasiões, ainda me deixo tomar de assalto por fatos como o terremoto ocorrido no Haiti, que vitimou milhares de pessoas, dentre elas a Zilda Arns. Não vou falar aqui do trabalho dela à frente da Pastoral da Criança que, em quase três décadas de prestação de serviços com a ajuda de voluntários, salvou milhares de pequenos brasileiros. Ou do seu mesmo empenho na Pastoral da Pessoa Idosa.
A conheci, acho, em 2005, quando foi eleita pela primeira vez Personalidade Cidadania, numa promoção realizada pela FOLHA DIRIGIDA, ABI e Unesco. Lembro que, na correria da cobertura do evento, troquei poucas, muito poucas, e óbvias palavras com ela. Nada além do tipo 'seja bem-vinda' ou de um fatídico 'parabéns'. Mas era impossível que pessoalmente, cara a cara, não se manifestasse multiplicada a mesma sensação de encantamento em mim despertada todas as vezes que a via em entrevistas na televisão.
Admiração que sempre nutri também por seu irmão, Dom Paulo Evaristo, de cuja atuação política, corajosa nos atos heróicos na época da Ditadura Militar, e cristã na filosofia da defesa da vida sobre todas as coisas, tomei conhecimento no clássico livro Brasil: Nunca Mais, uma das obras que mais fizeram minha cabeça na adolescência, com relatos e denúncias da barbárie da tortura no país. Os Arns, cada um a seu jeito, mas ambos com firmeza e mansidão, emprestaram corpo, alma e voz a algumas das causas mais nobres da Igreja Católica.
Mas a morte, sempre ela, como me incomoda! Acho o desfecho da vida muito mal resolvido, um roteiro óbvio demais e nada criativo para uma existência que, afinal, é plena de possibilidades. Não há dúvidas de que Zilda era um ser humano especial. Basta mirar esse olhos doces e o permanente sorriso que lhe estampavam a face, como na foto acima, registro (mais uma vez, apenas acho) do meu talentoso e querido amigo Daniel Ramalho, ex-FOLHA DIRIGIDA e atual JB.
Toda vez que vejo partir uma pessoa assim penso que as regras da vida deviam ser variáveis, menos rígidas e estúpidas. Que algumas figuras deveriam ser perenes, eternas. Ou que seriam merecedoras, ao menos, de uma prorrogação do tempo regulamentar. Não por elas, mas para o nosso próprio bem, enquanto sociedade e humanidade. E não me venham com a tese absurda, com a qual tentamos distrair e enganar as crianças que perdem entes queridos, de que, de tão bons, certos homens e mulheres são convocados antecipadamente para o lado de Deus. Baah!
Zilda tinha 75 anos, plenamente ativa. Morreu no exercício de seu ofício de ajudar. Certamente, ainda seria por demais útil aqui, na Terra. Vai fazer falta. Não só pelo seu trabalho social, mas por seu exemplo. Pessoas como ela fazem subir, em muitos pontos, o medíocre conceito médio da raça humana. Desequilibram a balança, se é que vocês me entendem. A fazem pender um pouco, pelo menos durante o breve período de suas existências, para o lado positivo da escala. E me servem de inspiração para um dia, quem sabe, poder experimentar esse ideal do quanto tão bom podemos ser todos nós. Eu me sinto tão distante disso...
Acredito em Deus, mas, às vezes, Dele duvido. Por vezes, creio apenas numa força superior, que sinto presente, mas nem sei por qual nome chamar, e de quem não consigo vislumbrar o rosto. Nesses momentos que julgo de pura e inequívoca injustiça, se me aborreço e revolto, na mesma medida me reconforto.
Pois é, Ele também erra...
5 comentários:
Belo post, Paulo. É exatamente como me sinto desde que soube da morte da D. Zilda Arns. A morte também em incomoda bastante e, em especial, quando atinge de forma tão cruel pessoas que passaram a vida a fazer o bem. É claro que era chegará para todos e que, infelizmente, a prorrogação do tempo regulamentar - também sonhada por mim para esses seres especiais - ainda não deu mostras de fazer parte das regras do jogo da vida, mas penso que pessoas como a D. Zilda mereceriam, ao menos, um fim mais tranquilo. Uma passagem que simbolizasse apenas o descanso. Morrer tragicamente, no instante em que levava o bem a mais e mais pessoas, de fato, não parece um fim justo e compatível com a sua trajetória.
Mas...vai ver até a justiça divina é cega, né?
Abraço!
Mais um grande texto, Paulo! Faço minhas as palavras do Murilo! Abs.
Pois é, Murilo. Enquanto isso, tanta gente ruim no mundo, tantas malas e fantasmas em vida a nos assombrar... Valeu pela visita e pelo comentário! Grande abraço!
Sérgio, vc por aqui...rs Vamos ressuscitar esse negócio? Conto com sua ajuda, além dos outros dois de quatro (ops!). Ah, sei da festinha de criança, mas, se der, passa lá em casa. Já montei as lasanhas, uma com catupiry (linda!) e outra sem (ficou linda tb!)...rs
Parabéns pelas profundas reflexões transmitidas pelo texto! Mais uma vez, palavras brilhantes...
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